A Face Cínica Do Racismo

A Face Cínica Do Racismo

 

Elisa Mattos

 

Não vou falar nada sobre Miguel. Não posso. Não tenho o direito. Não consigo, tenho trava na garganta. 

Brasília, 1993. Quando tinha cinco anos de idade, minha filha fez uma daquelas birras de criança, queria descer para brincar embaixo do prédio. Era hora do almoço, eu disse não. Inconformada, ela abriu a porta e saiu. Desceu correndo as escadas e logo alcançou a rua. 

Morávamos no quinto andar de um prédio localizado ao lado de um dos pontos turísticos mais visitados de Brasília, a Igrejinha. Área central da cidade, também chamada de nobre, onde a grande maioria dos moradores são abonados e brancos.

Corri logo atrás da minha menina, porém com menor agilidade, claro. E quando a avistei, ela estava lá na praça da Igrejinha, em pé ao lado de um senhor idoso, branco, de aparência saudável, que tomava sol enquanto lia as notícias sobre o Brasil e o mundo no jornal. 

Foi tudo muito rápido. Ao me aproximar, vi que ela segurava um dinheiro, uma nota de 1 real, disse que “ganhou” do homem. Naquele instante, meu coração disparou feito bala, pulava dentro do peito como uma bola em chamas. A irritação pela peraltice fora de hora da filha, se transformou em ódio profundo por aquele senhor. Percebi logo que ele deduziu que a menina estava ali para pedir esmola, ganhar restos, provavelmente a mando da mãe. Que atrevimento, que ousadia, que desaforo! 

A raiva me ardia. Minha reação foi berrar: 

– Devolve o dinheiro, devolve o dinheiro!! 

Uma criança pequena, sozinha numa praça deserta. Ela pode estar perdida, assustada, precisando de ajuda. Mas a criança é preta. Na lógica racista, ela é apenas mais uma daquelas crianças catarrentas, usadas por adultos preguiçosos para faturar uma graninha fácil. um serzinho incômodo, é preciso se livrar dele. A nota de um real resolve o problema, ajuda os pobrezinhos e alivia a consciência social do velho cidadão. 

Maldito dinheiro devolvido, assunto encerrado. Mãe e filha retornam para o almoço tranquilo em família. Nem tanto. No fundo, um certo incômodo persiste em mim por saber que, na verdade, tivemos sorte naquele episódio. Muitas vezes, incalculáveis vezes, a desgraça ronda nossas crianças, e elas não têm chance de voltar para casa. 

Pernambuco, 2020. No apartamento de luxo em Recife, o pequeno Miguel chama pela mãe, várias vezes. Mirtes teve que levar o cachorro da casa para passear. O filho ficou aos cuidados da patroa. Sari pintava as unhas, não queria ser incomodada. Miguel abre a porta e entra no elevador, deseja apenas encontrar a mãe. Precisa dela, como toda criança de cinco anos. 

Sari é branca, rica, mantém duas empregadas na casa, mãe e filha. Avó e mãe de Miguel. Uma família preta. Estamos numa pandemia, o coronavírus mata milhares de brasileiros por dia. Na casa de Sari, a rotina de privilégios não dá trégua. Mirtes e Marta são obrigadas a continuar servindo à família da patroa. Apesar do risco iminente de contaminação. Com a creche fechada, a mãe precisa levar Miguel para o trabalho. 

De volta ao elevador do prédio chique. Sari resolve ir ao encontro de Miguel, mas não o leva para dentro de casa. Ao contrário, a mulher aperta o botão da cobertura do prédio de 22 andares. Atitude assassina, que sugou a vida de Miguel. Ele caiu do nono andar. Se pendurou na mureta desprotegida para localizar a mãe. Mirtes estava no térreo. Foi ela quem encontrou o corpo do filho estirado na entrada do edifício.

Repito: o que posso eu dizer para Mirtes, diante de tamanha atrocidade? Não tenho em mim palavras edificantes de consolo diante da tragédia que assolou sua família. Não foi perda, foi crime. Crime covarde, racista, cínico, repulsivo. Se num gesto de humilhação contra minha filha, senti raiva profunda, sede de provocar dor física no velho e deixá-lo estrebuchado na praça da igreja, o que teria eu pra dizer para outra mãe que nunca mais vai colocar seu filho para dormir? 

Miguel, João Pedro, Ágatha, Jennifer e tantas outras crianças e jovens negros são mortos brutalmente todos os dias no Brasil. São números assustadores, de uma estatística macabra. Um projeto bem arquitetado que tenta eliminar toda uma geração, por conta da cor da pele. Corpos abatidos como pombos no clube de tiro ao alvo. Balas perdidas que sabem bem em quem chegar. Mães que esperam os filhos que não chegam. Crianças interrompidas. Vidas em pesadelos incessantes.

Brasil, 2022. Os algozes de Miguel vivem ao sabor da liberdade que lhes é garantida. Mirtes dribla a dor e corre atrás de justiça. A Justiça não tem pressa. Mas tem cor. E não é a cor da família de Miguel. Nem do João Pedro, da Ágatha, da Jennifer.. 


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1. Crônica de Elisa Mattos, debatida e analisada em live no canal do Núcleo de Escritoras Pretas da UnB. Assista em:

Elisa Mattos é jornalista, escritora e poeta. Integra o Núcleo de Escritoras Pretas Maria Firmina dos Reis do Instituto de Letras (IL/UnB).